Advertência: Esta postagem ficou bem longa. Mesmo com os vídeos e imagens, que ajudam a manter o interesse, creio que só será apreciada por aqueles(as) dados(as) a longas distâncias e longas leituras - reclinados ou não... Aproveitem!
- Bicycle Dreams - o filme:
"Não é um evento esportivo no sentido clássico - é mais parecido com jogar um gladiador dentro de um fosso com um leão"
"As pessoas falam, 'é uma corrida de bicicleta'. Não. Isso aqui não dá para comparar com nada (...) Isso aqui é uma coisa de outro planeta"
Estes depoimentos fazem parte do recém-lançado documentário "Bicycle Dreams - a verdadeira história da Race Across America". Selecionado para muitos festivais de cinema e já premiado em vários deles, o filme do diretor Stephen Auerbach tem tudo para mexer fundo com o povo do pedal. Trailer abaixo. O DVD está à venda na página oficial do filme.
- No fórum BROL ('Bent Rider Online), o tópico sobre RAAM soma mais de 800 msgens (!)
- No mesmo fórum, o tópico sobre a desistência de Jure Robic - estrela do ciclismo de ultra-distância e tetra-campeão da prova - passou de 350 msgens. Neste tópico se discute/especula sobre a alegada falta de lisura da arbritragem da prova ao admnistrar penalidades. Visões bastante diferentes e até conflitantes do assunto foram apresentadas, sempre em alto nível - em nenhum momento a discussão descambou para uma flame war. O assunto é bem delicado e potencialmente poderia abalar a reputação do evento. Jure diz que jamais voltará a participar da RAAM. O ciclista esloveno, ídolo em seu país, embora seja atleta amador (!), é o tema de um outro documentário, intitulado The Wheel Of Life (A Roda da Vida). Trailer abaixo.
- Não obstante, a participação espetacular da equipe Rans - ainda que não tenha batido o recorde reclinado - excitou os ânimos na comunidade reclinesca. Muita gente já está torcendo que a participação cresca em 2010, que tenhamos ao menos 2 equipes competindo entre si, e quem sabe tbém algum reclineiro solo. Nomes que vêm à mente do povo são Velokraft e Bacchetta, que já têm tradição na RAAM. Bacchetta, muito especialmente, é uma empresa muito presente em competições de ultra-distância nos EUA. John Schlitter, co-proprietário, é um ciclista de grande sucesso na modalidade, assim como vários outros atletas Bacchetta, inclusive algumas damas. Isso tudo parece estar gerando o sentimento de que a marca deve estar na RAAM em 2010.
Neste tópico do fórum Bacchetta já se começa a discutir seriamente o assunto. Especula-se de tudo por enquanto: uma ou duas equipes de 4; uma equipe de 8; uma equipe feminina ou mista; vários ciclistas solo, inclusive um na categoria 60-70 anos; e por aí vai. A maior dificuldade é arcar com os custos, que são muito altos para uma empresa pequena. Colocar uma equipe na estrada, na RAAM, significa mobilizar no mínimo uma dúzia de pessoas e 3 a 4 veículos de apoio. Estima-se o custo total em 25000 dólares, aproximadamente, por cada equipe.

- Considerando o exposto acima, torna-se especialmente admirável o fato de que muitas equipes conseguem não apenas arcar com os custos, mas ainda arrecadar fundos para diversas causas humanitárias - este é um dos aspectos muito bacanas da RAAM. Em média, as equipes têm arrecadado cerca de um milhão de dólares por ano.
- Este ano acompanhamos vários casos de ciclistas acometidos pela temida "síndrome de Shermer Neck". Acontece quando o ciclista simplesmente não consegue mais sustentar a própria cabeça. Não lembro os nomes de todos os acometidos nesta edição, mas sei que ao menos um teve que abandonar a prova. Normalmente, nesses casos, tenta-se contornar o problema montando uma armação (de PVC, p.ex.) amarrada às costas do ciclista, que faça o trabalho que a musculatura já não consegue. Este ano apareceu uma solução alternativa, criada pela equipe de apoio do ciclista Paul Danhaus. Para a confecção do (bem-sucedido, diga-se de passagem) equipamento foram utilizados os materiais disponíveis no momento - incluindo um absorvente feminino. Parece que este último elemento foi fundamental para proporcionar... absorção (tanto de suor quanto de trepidação). A necessidade é a mãe da invenção.

- As bicicletas Rans XStream utilizadas pela equipe reclineira - especula, bem-humoradamente, um membro húngaro do fórum BROL - são possivelmente as mais pesadas e tbém as mais baratas de todas as bicicletas utilizadas na RAAM. Especulação que provavelmente está bem perto da realidade. O modelo Xstream de fábrica custa cerca de 2600 dólares e pesa 11,8 kg. Pesada mesmo para uma reclinada (de corrida, claro): uma M5 de carbono está mais para 8 kg, e as convencionais top de linha, pouco mais de 6. Isso não impediu que os atletas dessem um show, inclusive nas montanhas. As que foram utilizadas na corrida tinham como único up-grade aparente as rodas Zipp e Hed que os próprios ciclistas trouxeram.
- Ao falar em peso - da bicicleta, do ciclista, ou de ambos - é natural falar tbém em subidas, ladeiras, lombas, morros, montanhas... Pois é aqui que o peso (a massa, corrigiria o Olavo) se torna um obstáculo importante: quando pedalamos morro acima, estamos avançando para frente e para cima - indo contra a aceleração da gravidade, portanto.
Já vimos que as XStream pedaladas pela equipe Rans eram provavelmente as bicicletas mais pesadas da corrida (sem contar as tandems e as hand-bikes, obviamente).
Agora seria o momento de perguntar: como foi o desempenho dos reclineiros nas subidas? Reparem que falo dos reclineiros, não das reclinadas - bicicleta não anda sozinha, muito menos morro acima.
Reproduzo aqui dois gráficos que podem ajudar a visualizar e entender esta e outras informações. O primeiro, tirado do site da prova, mostra os PCs (=TS=time station) na linha horizontal; a linha vertical mostra, para cada PC (TS), a percentagem de escalada daquele ponto em relação à altimetria acumuldada total da prova - são as barras cor-de-telha. A linha com pontos que corre por cima é uma tentativa de representação da dificuldade relativa (subjetiva?) de cada trecho. Clique sobre a imagem para visualizar melhor.

O segundo gráfico é obra de João de Souza, um reclineiro e webdesigner brasileiro radicado em Nova York. Neste, a linha horizontal tbém representa os PCs (TSs), e a vertical representa velocidade média (expressa em milhas por hora). As linhas coloridas representam o desempenho de cada uma das 4 equipes mais fortes da categoria quartetos deste ano. O gráfico está incompleto, porque quando a equipe Rans (linha verde) cruzou a linha de chegada, o João parou de atualizar, e naquele momento as outras equipes estavam vários PCs (e algumas centenas de quilômetros) atrás.
Observem que as curvas correm praticamente paralelas. Onde a média de uma equipe despenca, todas despencam: são os trechos de montanha, especialmente os mais íngremes (não necessariamente as montanhas mais altas).
É importante observar que o gráfico do João mostra a velocidade média total de cada equipe a cada ponto da prova - ou seja, ele não diz a velocidade que cada equipe desenvolveu em cada etapa separadamente. Mas, com um pouco de paciência, é possível buscar tbém estas informações - a partir daqui - que ajudam a ter uma imagem mais nítida do desempenho geral e nas montanhas.
Tomo como exemplo o PC 46 (Gormania, West Virginia). Este trecho dos temidos Montes Apalaches foi onde a equipe Rans registrou a pior média entre um PC e outro: 14,83 milhas por hora. A equipe Strong Heart fez 15,89 - pouco mais de 1 milha por hora mais rápido que os reclineiros. A equipe Austria Triathlon Team fez a melhor média dos 4tetos neste PC: 16,58. Mesmo assim, chegou em 3º lugar; Strong Heart em 2º, Rans em 1º.
Outro exemplo: PC 8 (Flagstaff, Arizona - um dos trechos mais difíceis segundo o diagrama oficial). Aqui, Rans fez 16,98 de média - mais alta do que as equipes convencionais: Strong Heart fez 16,45, Surfing USA (que então liderava a prova) fez 16,2.
Bueno, alguém pode estar se perguntando, e pra quê essa apurrinhação toda? É que o tema reclinada & subida é quiçá o capítulo menos compreendido de todo o ciclismo. Nem os próprios reclineiros se entendem. É um assunto complexo, que parece simples, e faz com que, invariavelmente, pessoas digam ou escrevam bobagens, quando se deixam guiar apenas por aquilo que lhes parece ser "intuitivamente lógico".
Não pretendo esgotar o assunto aqui, evidentemente. Ele está acima das minhas forças tbém. Mas, tendo como base os dados expostos acima, parece-me viável elencar algumas conjecturas que me parecem razoáveis. Racionínios mais completos serão muito bem-vindos na seção de comentários. Lá vai:
1) Das duas, uma: ou os atletas da Rans são muito mais fortes que todos os outros da categoria (quartetos) , ou as reclinadas não são - nem de longe - tão ruins de subida como a maioria crê. A única maneira de saber com certeza seria montar um dispositivo de medição de potência em cada bicicleta e comparar os valores. Esse dispositivo (power meter, em inglês) pode ser montado no pedivela ou no cubo, e vem aos poucos substituindo o monitor cardíaco como acessório para treinamento.
2) Existe uma crença, baseada na observação, segundo a qual a reclinada apresenta alguma desvantagem em subida, quando a inclinação passa de um certo valor. Quanto? Não se sabe; alguma coisa até 5 ou talvez 10 %.
A propósito: a inclinação de estradas é freqüentemente expressa em percentagem (e não em graus). Como referência: um percurso perfeitamente plano/horizontal tem inclinação de 0%, enquanto uma rampa com ângulo de 45 graus tem inclinação de 100% - a cada metro de chão percorrido, sobe-se tbém 1 metro na vertical. Em uma ladeira de 10%, sobe-se 1 metro a cada 10 metros percorridos, e assim por diante. Indicações de inclinação, em países do Hemisfério Norte, fazem parte da sinalização de trânsito. Ao lado, imagem de uma estrada no País de Gales. A placa (bilíngüe) alerta os motoristas para que usem marchas de força. Ciclistas não precisam de advertência, pois sentem a inclinação nas pernas, imediatamente... (editado 12-vii-09)
Os resultados parecem corroborar essa crença: Rans assumiu a liderança justamente em terreno montanhoso (as Rochosas) - porém, a inclinação daquelas estradas é bem menor que a dos Apalaches - onde, de fato, Rans registrou, por breves momentos, média de velocidade abaixo dos outros quartetos.
3) Se for verdade que a reclinada apresenta desvantagem a partir de uma certa inclinação do terreno, então tbém é verdade que, em terreno de inclinação menor do que este valor (que não sabemos ao certo), essa desvantagem não existe. A não ser na cabeça de algumas pessoas. E, como dizem que na subida o fator psicológico "pesa" muito...
4) Em um percurso suficientemente longo, uma pequena desvantagem em um trecho particular não é suficiente para anular as grandes vantagens representadas pelo conforto e pela área frontal (=arrasto aerodinâmico) menor da reclinada. Observe-se que, neste caso particular, não se trata de reclinadas que exploram a vantagem aerodinâmica ao máximo - bem longe disso.
5) Para os reclineiros: da próxima vez que você ultrapassar um ciclista convencional, em um trecho plano, ou passar zunindo por ele em uma descida, não pense que você é o Super-Homem. É possível que o ciclista que você ultrapassou seja até mais forte que você; mas a aerodinâmica trabalha a teu favor.
6) Para os ciclistas convencionais: da próxima vez que você ultrapassar um reclineiro em um subida, não pense que é porque a reclinada não presta. O cara é que é um pangaré. Se você pegar um reclineiro mais forte que você, ele vai te fazer comer poeira, mesmo na subida.
7) É por essas e por outras que o "sorriso reclineiro" está se tornando icônico. Vá procurar alguma foto de ciclista sorrindo no meio da RAAM. Tirando os reclineiros, só a Dani Genovesi consegue...






















